“Houve um tempo em que nosso poder perante a Morte era muito pequeno. E, por isso, os homens e as mulheres dedicavam-se a ouvir sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, o nosso poder aumentou, a Morte foi definida como inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de nos livrarmos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos perante ela (inutilmente, porque só podemos adiar...), mais tolos nos tornamos na arte de viver. E quando isso acontece, a Morte que poderia ser conselheira sábia transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que para recuperar um pouco da sabedoria de viver, seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte. Mas, para isso, seria preciso abrir espaços em nossas vidas para ouvir a sua voz. Seria preciso que voltássemos a ler os poetas...”


( Rubem Alves, 1991; Fonte: E a Psicologia entrou no Hospital. Valdemar Augusto Angerami - Camon, et al).

sábado, 13 de outubro de 2012

MITOLOGIA EGÍPCIA [3] - MUMIFICAÇÃO

(Anúbis, deus dos mortos e da mumificação, mumificando um cadáver)


Quando se fala de religiosidade do Egito Antigo, não se pode passar sem se lembrar do famoso processo de mumificação. As múmias egípcias não são as únicas múmias, vários outros povos antigos tinham o costume de mumificar seus corpos, mas nem todos esses povos ficaram tão famosos quanto os egípcios neste quesito. Um exemplo desses outros povos são os Incas, que conservavam seus cadáveres e colocavam-nos em uma espécie de cápsula oval para se conservar, depois enterravam em grandes tumbas de pedra. Bem, os Incas não vem ao caso agora, talvez mais tarde eles sejam falados, talvez não. Mas, antes de começar a descrever a mumificação egípcia famosa, é preciso falar dos outros dois tipos de mumificações não tão conhecidas, que também existiam na época.

Vale ressaltar também que, antes do período da mumificação, o costume dos povos daquela área era outro. Em tribos anteriores à formação do antigo Egito conhecido, em épocas em que a área era ocupada por vários povos primitivos até o início da formação do estado Egito, era comum que os corpos fossem comidos pelos parentes. Após a morte, haveria um ritual de honra em que seus parentes mais próximos como filhos se alimentariam da carne do enteado, para absolver sua subjetividade, espiritualidade. Era desonroso, para esses primeiros povos, deixar que o corpo do enteado apodrecesse na terra. Era obrigação o ritual de digestão da carne, principalmente do coração e cérebro. Este culto também era feito por povos do mediterrâneo, em épocas equivalentes.

A famosa mumificação egípcia não era um privilégio de toda a população, mas, de apenas sacerdotes e reis, príncipes, príncesas e rainhas egípcias. Para a população local, com exceção da realeza e dos sacerdotes, a mumificação ocorria de forma bem mais simples. Primeiro, introduzia-se vinhos corrosivos através do ânus do recém-morto, para que estas essências corroessem o máximo de órgãos internos que alcançassem, 'limpando" o cadáver. Uma espécie de tampão era posto no ânus para que o líquido não saísse por alguns dias e, só depois do tempo necessário, o tampão era retirado e o cadáver era posto de pé para que todo o material dissolvido escorresse deste. Assim, o corpo era todo enfaixado como naturalmente no processo de mumificação e devolvido aos parentes. Por falta de dinheiro, muitos desses corpos eram enterrados nas areias do Egito, nas dunas áridas e inóspitas e as próprias condições secas do terreno mumificavam o corpo. Outros corpos eram resumidos ao pó para serem comercializados. Os comerciantes acreditavam que o "pó de múmia" era milagroso e servia para fazer chá com fins espirituais.

Outro tipo de mumificação existente, na época dos faraós, foi a chamada Mumificação Solar. O corpo era mergulhado e cozinhado até as carnes e os órgãos ficarem flácidos o suficiente para serem extraídos. Deixavam apenas o esqueleto do indivíduo, que era todo pintado de vermelho - todos os ossos - e depois, no lugar da carne e dos ossos, modelava-se um corpo com gesso. Essa modelagem tinha uma própria moldura, que se chamava a estátua Ka, ou seja, a estátua em que a alma do sujeito habitaria. Ka é alma na língua egípcia antiga. Assim que a estátua Ka era formada de gesso com base no esqueleto do sujeito, um retrato da própria pessoa era pintada no gesso e, dessa forma, essa nova múmia era colocada no túmulo.

(Ritual de Abertura da Boca)


Enfim, a mumificação que se tornou mais famosa no Egito foi a mumificação de Osíris, ou osiriana. Esta que foi reservada na cultura ocidental através de filmes e documentários. Essa mumificação era feita apenas para sacerdotes e faraós, integrantes da alta sociedade egípcia. Quando o sujeito morria, seu corpo era levado para um local especial e apenas os autorizados a mexer nele eram os embalsamadores. O embalsamador era um dos cargos mais privilegiados no Egito Antigo, justamente porque os embalsamadores eram os responsáveis pela manutenção de um corpo apropriado para receber a alma do cadáver em sua vida do além. Essa mumificação era extremamente importante para o povo e, portanto, havia um lugar próprio para que o corpo fosse preparado, chamado de Lugar da Purificação ou "Ibu".

No Ibu, os embalsamadores, primeiro, lavavam o corpo recém-morto com óleos e essências aromáticas e conservadores, além da água do Nilo, a fim de tornar a pele do cadáver mais elástica. Depois, um corte do lado esquerdo do corpo, feito com uma faca de silica, era o suficiente para que os embalsamadores retirassem as vísceras do sujeito, "limpando" o corpo. O coração era o único órgão a ser mantido, já que era nele onde as emoções e razão do sujeito estavam contidas. Assim limpado, o corte feito era fechado. Em uma época mais antiga, esses órgãos eram embalsamados com óleos conservadores e guardados em vasos canópicos, que são vasos geralmente de barro feitos para conservar estes órgãos. Cada vaso tinha o rosto de um deus e servia para um órgão específico. O vaso canópico de Osíris guardava o fígado, Tot guardava os pulmões, Anúbis guardava o estômago e Hórus guardava os intestinos delgado e grosso. 

(Vasos canópicos: Osíris, Anúbis, Hórus e Tot)


Em outras épocas, menos antigas, esses órgãos deixaram de serem preservados e eram realmente descartados, assim como o cérebro vem sendo desde antes. O cérebro não era importante para os egípcios, portanto, era retirado e descartado, não guardado em vasos canópicos. A retirada do cérebro era através da via nasal: uma fina barra de ferro em forma de anzol era introduzida pela narina do cadáver e o cérebro era puxado naturalmente por ali. De substância esponjosa, a massa encefálica conseguia se afinar e sair pela narina facilmente, sem precisar de essências corrosivas para ajudar. Enfim, logo depois de tirar as vísceras do corpo, para a melhor conservação, esse corpo era preenchido no interior de serragens e folhas secas (sim, como se estivesse sendo empalhado) e, novamente, embalsamado com óleos conservadores e, inclusive, formol. Formol era um produto já usado pelos egípcios antigos.

Depois de todo o banho de Natro, Formol, Cera de Abelha, Cebola, dentre outros produtos, o corpo começava a ser todo enrolado com tiras de linho. Várias camadas eram necessárias para a sua conservação, algumas múmias relatadas já foram encontradas com mais de 20 camadas de faixas. Esse enfaixamento se inicia, verticalmente, dos pés à cabeça e, depois, horizontalmente, começando a enfaixar a cabeça e todo o tronco, com exceção dos braços e pernas. Os membros inferiores e superiores eram enfaixados depois. Cada dedo dos pés e das mãos eram também enfaixados particularmente. Entre as camadas de enfaixamento, amuletos eram colocados para proteger o indivíduo dos espíritos maus na vida do além, como escaravelhos, ankh, o laço de íris, dentre outros. Depois desta camada inicial, um amuleto de escaravelho é colocado em cima do coração do sujeito, com citações do livro dos mortos em seu verso. Um rolo de papiro com encantamentos do livro dos mortos também é colocado entre as mãos juntas do indivíduo.

(Ankh, símbolo da eternidade, Prumo, símbolo do equilíbrio espiritual e Laço de Íris, símbolo da proteção)


Vem, logo então, uma outra fase de enfaixamento, onde a múmia é enrolada toda, com braços e pernas juntos ao corpo e, neste enfaixamento, as tiras de linho eram banhadas com uma espécie de cola, para se manterem unidas. Ainda por cima deste enfaixamento, uma túnica com o desenho de Osíris - deus do reino dos mortos egípcio - é colocada por cima. Esta túnica é amarrada à múmia e outra túnica (mais outra!) cobre tudo, amarrada com mais e mais tiras de linho. Uma capa de madeira fina cobre a múmia, por cima de tudo, pintada antes de colocar o corpo no primeiro sarcófago.


(Sarcófago e Máscara Funerária) 


O primeiro sarcófago era, antes, quadrado, mas, décadas depois, começou a ser modelado no formato do corpo humano. Antes de ser fechado neste sarcófago, o cadáver recebe em seu busto uma máscara funerária, que normalmente é feita de lápis lazuli e ouro. Antes de colocar a máscara funerária cobrindo o busto do corpo, um ritual  de enterro é feito pelos embalsamadores enquanto os familiares do morto comem e bebem. Este ritual é o ritual de abertura da boca, pois acredita-se que a alma do além voltará a habitar o corpo através da boca aberta. Os embalsamadores, durante o ritual, vestes máscaras com o rosto de Anúbis, deus dos mortos e da mumificação, com cabeças de chacal para representá-lo. Após o ritual, o corpo é colocado neste primeiro sarcófago.

Junto ao sarcófago, são colocados no túmulo os Uchebtis, "os que respondem"; são pequenas estátuas feitas de barro, madeira, ou ouro com lápis lazuli, que serão servos do cadáver na vida do além. Os Uchebtis normalmente eram esculpidos com inchadas, cestas nas costas, dentre outros utensílios de servos. Também junto ao sarcófago os pertences mais valiosos do sujeito eram guardados consigo e alguns animais de estimação, como gatos, também eram mumificados.Todas essas coisas eram trancadas no túmulo. O túmulo, como um segundo sarcófago, era um grande cômodo onde os móveis também eram preservados. Cadeiras, papiros, com tinta para escrever, camas, ouro, jóias, enfim, todos os pertences importantes do sujeito eram mantidos para que ele pudesse reutilizá-los assim que voltasse para seu corpo, durante sua vida no além. O túmulo era trancado e selado com barro. O selo normalmente tinha Anúbis e servos deste.


(Uchebti)


REFERÊNCIAS:



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